Quando a diplomacia e a espionagem tocam a mesma fronteira

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Qual a fronteira entre a diplomacia e a espionagem? Quais os limites da troca de informações e opiniões? As informações do Arquivo Mitrokhin, divulgado pelo semanário Expresso, sobre contactos que os serviços secretos da extinta URSS mantiveram com diplomatas portugueses, têm tido um efeito colateral: recuperar memórias de episódios vividos ao longo das suas carreiras ao serviço de Lisboa.

Associar essas memórias a práticas de espionagem é assunto que os embaixadores contactados pelo DN descartam, apesar de admitirem que os diplomatas não costumavam ser “preparados especificamente para distinguir quem eram os agentes de outros serviços disfarçados de diplomatas”. Evocados são também os casos da expulsão ordenada pelo governo português, em agosto de 1980, de quatro espiões do KGB por intromissão nos assuntos internos de Lisboa.

Embaixadores visados no Arquivo Mitrokhin como os ex-ministros dos Negócios Estrangeiros António Martins da Cruz e António Monteiro, ou o antigo secretário de Estado dos Assuntos Europeus Francisco Seixas da Costa, reagem com divertimento e até surpresa sobre o conteúdo das respetivas fichas criadas pelo arquivista do KGB que desertou para o Ocidente no final de 1990.

Os três embaixadores coincidem em afirmar ao DN que as fichas agora tornadas públicas provam basicamente duas coisas: a vontade dos espiões em mostrar serviço a Moscovo e o bom senso e sentido de Estado dos diplomatas de carreira portugueses. “Na diplomacia, o que há são trocas de opiniões que têm um fundo de verdade para serem credíveis, mas no limite do que entendemos ser o interesse nacional”, assume António Monteiro ao DN.

Portugal, após anos de isolamento internacional e em particular face ao universo comunista, tornou-se depois do 25 de Abril um polo de atração para os diplomatas da Cortina de Ferro, quando a Guerra Fria continuava quente e Lisboa tinha fortes ligações aos países africanos lusófonos recém-independentes.
Martins da Cruz diz ao DN que “os diplomatas são pagos para contactar com os outros diplomatas e ter boas relações. Houve muitos contactos ao nível dos países africanos e no Médio Oriente”, bem como ao nível de organizações multilaterais como a ONU e a OSCE. “Claro que houve contactos entre espiões disfarçados de diplomatas, mas não tenho conhecimento de nenhum caso [português] que tenha ido além disso”, adianta o diplomata a quem o KGB atribuiu o nome de código “Marat”.

António Monteiro, identificado pelo KGB como “Janus”, acrescenta: “É evidente que estamos preparados para saber o que dizer e o que não dizer, quais os limites da troca de informações e opiniões – e também para a desinformação que daí resulta.” O antigo embaixador junto da ONU, que assinala erros de facto na sua ficha do KGB, sublinha que tal “só pode ter sido escrito por alguém que queria mostrar serviço e impingia dados” a Moscovo. “Diretamente não tive nada, nem a propor subornos ou por simpatia pela causa, que eram os motivos” para as abordagens dos soviéticos – mesmo quando para obter apenas informação aberta – junto dos diplomatas ocidentais, diz António Monteiro.

Seixas da Costa explica que “essas abordagens eram sempre feitas a níveis baixos da embaixada, porque o embaixador não falava com o homólogo. Um encontro desses teria sempre um significado de natureza política muito superior ao que é um encontro banal” entre funcionários de posto inferior.
Considerando “estranho que não apareçam mais nomes” de portugueses no Arquivo Mitrokhin, Seixas da Costa entende que “deve haver ali algum excesso de voluntarismo” dos espiões do KGB, “no sentido de dizer “consegui isto” ou dar-se alguma importância. A questão é saber que tipo de afirmações põem na boca das pessoas com quem falaram”.
No tempo da Guerra Fria, “os diplomatas da Europa de Leste e da URSS viviam com a preocupação de estabelecer contactos e redes de informação e os relatos que aparecem nesses textos [Arquivo Mitrokhin] provam isso”, assegura Seixas da Costa. “Não se está a ver o [jornalista] Fernando Lima ou o Martins da Cruz, pessoas ligadas uma à outra, com estatuto de espiões. Não parece plausível e esses casos ajudam a perceber a plausibilidade daquele tipo de coisas” escritas para o KGB, argumenta o antigo secretário de Estado dos Assuntos Europeus.

Martins da Cruz, que foi “o primeiro ministro dos Negócios Estrangeiros a acreditar agentes do SIED [Serviço de Informações Estratégicas de Defesa] noutras embaixadas” e devidamente identificados junto dos serviços secretos locais, lembra que os diplomatas não costumavam ser “preparados especificamente para distinguir quem eram os agentes de outros serviços disfarçados de diplomatas”. Essa “é uma questão de bom senso”, pois “às vezes é muito difícil distinguir” quem é quem – e ainda mais no tempo da URSS, em que os diplomatas e os espiões do KGB “liam pela mesma cartilha”, salienta.

“Em circunstâncias normais, um diplomata conhece outro diplomata. Agora se for com a formatação soviética, é muito difícil porque eles pensam, agem e falam da mesma maneira. Hoje em dia, a situação é muito diferente. Os diplomatas russos são mais sofisticados do que no tempo da Guerra Fria”, realça Martins da Cruz.

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